
Itália: descendente da família Fiori conhece vila de onde partiram imigrantes
Conhecer as origens é
uma curiosidade de todo ser humano. Alguns têm essa curiosidade aguçada
pela representatividade do passado de seus pais, avós ou bisavós.
A Serra Gaúcha, na região das colônias
italianas,
explora muito bem esse passado atraindo turistas curiosos em conhecer como
viveram aqueles que atravessaram o oceano no século XIX em busca de
prosperidade. Depois de vencerem tantas dificuldades, construírem estradas
e cidades, fica para seus descendentes mais distantes a vontade de saber como
tudo começou. O que era para ser apenas um processo de cidadania italiana,
para garantir viagens mais tranqüilas com um passaporte europeu, resultou
numa aventura: entre os meses de maio e junho, passei 20 dias viajando pela
Itália.
O ponto alto seria no
domingo, 25 de maio. De Florença, eu e meu marido (descendente de bergamascos)
tomamos um trem para Lucca, uma cidade fundada por etruscos e dominada pelos
romanos em 180 a.C. O
motivo
é que Lucca é o ponto de partida para subir os Alpes Apuane,
lá em cima, na antiga Castelnuovo di Garfagnana, estão as origens
do meu sobrenome, segundo as pesquisas para o processo de cidadania. O posto
de informações turísticas de Lucca tem um amplo material
de divulgação da região, mas quando pergunto sobre a
pequena Monterotondo a atendente não faz idéia. Uma das "frazioni"
de Castelnuovo, algo como distrito, nem mesmo aparece no mapa. A saída,
foi pegar um trem e ir até lá, mesmo sem saber se havia horário
de retorno. O importante era aproveitar a oportunidade.
Para chegar a Castelnuovo,
um trem simples, de apenas duas composições, parte de Lucca
em direção aos alpes. A paisagem se transforma: dos campos verdes
ponteados de ciprestes e "novelos de palha" da Toscana, para uma
paisagem bastante familiar a quem sobe a Serra Gaúcha. Trata-se do
mesmo modelo e distribuição de casas e a única diferença
é que as montanhas são infinitamente mais altas, e algumas preservam
a neve do último inverno. Com certeza, esses italianos não estranharam
a geografia e o clima do sul do Brasil. A vista se completa com algumas pontes
romanas ou fortalezas em ruínas. Passa-se por cidades como Bagni di
Lucca, onde as águas termais atraiam os centuriões aposentados
do Império
Romano. Castelnuovo não demora a aparecer. Trata-se de uma cidade que
é referência há séculos para a região. Já
foi chamada de "Caferonianu" nos mapas da Roma Antiga (em exposição
no Museu do Vaticano). No século IX praticava-se a profissão
de tabelião no interior do "Castello Nuovo" erguido junto
à confluência dos rios Turrite Secca e Serchio. No século
XV, os "garfagnini" aderiram ao governo de Niccolò d'Este
di Ferrara, na intenção de fugir da disputa entre Pisa e Lucca.
Foi quando a Rocca Ariostesca, uma fortaleza construída no século
XII, passou a ser residência dos governadores da província.
Casas e sobrados guardam
a história de sobrevivência a batalhas e diferentes domínios.
Logo após a entrada é possível avistar a igreja de San
Pietro e Paolo, construída em 1467 já para substituir uma mais
antiga
em homenagem aos mesmos apóstolos. E foi nessa igreja que os Fiori
foram batizados, segundo a certidão enviada pela paróquia ao
Brasil. Idosos se apressam para a missa das 18 horas, inclusive uma senhora
a quem pedi informações sobre como chegar ao centro da cidade
a partir da estação. "Lei ha trovato il centro? Bene!"
Os habitantes são simpáticos aos estrangeiros, o que é
louvável em se tratando de uma cidade fora da rota turística
da Itália. Foi um "carabinieri", policial local, que confirmou
a existência de Monterotondo, além de também nos informar
sobre o último trem às 20h de volta a Lucca. A cidade é
tão fora da rota turística, que si quer havia táxis.
A minha presença, acompanhada de meu marido, chamou a atenção
da pequena cidade de sete mil habitantes Um senhor curioso vem perguntar do
que precisamos e nos leva a uma "gelateria" para que chamem um táxi.
Enfim, somos levados pelo seu Gulielmo ao "paesino" de Monterotondo.
Uns cinco minutos pela rodovia e mais três minutos por uma sinuosa estradinha
numa colina verde. De repente, uma vilazinha de casas de pedra surge à
nossa frente. Uma igreja, chamada Santo Espírito e meia dúzia
de sobrados. No jardim da igreja, dois casais de idosos conversam. Agora o
assunto éramos nós. "Perchè fotografie?" Converso
com eles e dona Eni Tellini, responde de pronto: "Sì, io ho conosciuto
Agostino Fiori. Era già un anziano". Ela diz que ele teve irmãos
que foram para o Brasil e pergunta se eu quero ver a casa deles.
A família Fiori,
do casal Ferdinando Fiori e Francesca Giannasi, morava num sobrado de pedra
com pequenas janelas para um vale. Infelizmente o sobrado precisou ser reformado
e parte da fachada perdeu as
características
para um reboco de cimento. A entrada, atrás, tem um forno de pedra,
onde dona Francesca devia fazer os pães para os filhos Giovachino,
Domenico, Giovani, Agostino e Paolo. A casa está abandonada e pertence
à família de Agostino. O sobrado ao lado foi alugado por uma
idosa. A cidade toda é de idosos. Os jovens vão embora cedo
para a universidade e mercados de trabalho mais promissores. Dona Eni conta
que aquele vale em frente à casa dos Fiori era cheio de árvores
de avelã. A "farina dolce" era fabricada por eles e vendida
na região. Mas vieram os tempos difíceis. Giovachino e Domenico
foram para o Brasil, desceram os alpes em direção a Genova acompanhados
da esperança de uma vida melhor.
Na colônia de Santa Isabel, atual Garibaldi, Giovachino casou-se por volta de 1885 com Antonia Zilio, mudou o nome para Joaquim e construiu um sobrado em Pinheiro Seco, distrito de Veranópolis. Um povoado formou-se em torno do estabelecimento comercial dos Fiori. Na década de 1920, recebe o nome de Vila Flores, em homenagem à família. Giovacchino recebeu uma homenagem póstuma da Camara di Commercio, Industria, Artigianato, Agricoltura di Lucca, com Diploma di Benemerenza. Enquanto isso, em Alfredo Chaves, atual Veranópolis, Domenico Fiori se dedicou ao comércio e à política. Em 1884, casa-de com Lucia Gonzatti e tem quatro filhos. Fundou a Societá Stella di Itália, também conhecida como Consiglio di Principe di Napoli, ainda em Conde d'Eu, atual Bento Gonçalves. Em Veranópolis, foi Conselheiro da Confederazione Italiana in Alfredo Chaves entre 1891 e 1894. Viúvo, casou-se pela segunda vez com Maria Giovanna Canal em 1900, com quem teve outros três filhos.
Uma viagem como esta vai muito além de um passeio turístico. Trata-se de uma aventura ao conhecer o caminho de nossos antepassados para a América. Tudo é história, das muralhas de Bergamo, da riqueza do Palazzo Ducale de Veneza, das ruínas de fortalezas nas montanhas da Toscana, das edificações de Roma, da antiga república marinara de Amalfi, dos templos gregos de Paestum e da quase intacta cidade romana de Pompéia...tudo faz parte de uma história que emociona descendentes que encontram mais do que nomes de ruas ou certidões de nascimento, encontram as origens.
*Alexandra Fiori é jornalista e autora deste site.